Hoje eu não trouxe exatamente um conteúdo espiritual, e sim uma reflexão — uma dessas que vêm me pegando nas últimas noites e não largam mais.
Pense comigo: no mundo atual, o “melhor” é ser famoso numa rede social. Ser famosinho, né? Ter condição de postar alguma coisa e receber uma enxurrada de curtidas, de comentários achando legal. Todo mundo tem opinião formada sobre tudo, e o ambiente virtual está cheio de gente tentando ditar o que fazer, o que evitar, o que é certo e o que é errado. Até dentro da Igreja temos esses que impõem as regras: ficam discursando sobre a liturgia, sobre como devemos nos comportar, o que cumprir e de que jeito. Mas, muitas vezes, sem nenhuma base espiritual e litúrgica capaz de nos ajudar de verdade nesse aspecto.
E aí eu paro e me pergunto: será que é isso que leva a gente pro céu?
Os encontros de Jesus
Quando a gente lê o Novo Testamento, uma coisa chama atenção: os encontros de Jesus, muitas das vezes, são com pessoas que não têm nenhum apelo popular. Ele conversa com prostitutas, toca leprosos. E os grandes milagres, as grandes mudanças de rota, acontecem justamente nesses momentos.
Olha o que acontece quando um leproso se aproxima d’Ele:
“Um leproso chegou perto de Jesus e, de joelhos, pediu: ‘Se queres, tens o poder de me purificar’. Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele e disse: ‘Eu quero: fica purificado!’” (Mc 1,40-41)
E repare no detalhe que quase ninguém comenta: logo depois do milagre, Jesus recomenda ao homem que não conte nada a ninguém (Mc 1,44). Ele faz o maior bem possível na vida daquela pessoa e não quer plateia. É o contrário exato da lógica das redes: hoje a gente mal faz o bem e já quer postar.
O mesmo acontece com a mulher pecadora que lava os pés de Jesus com suas lágrimas, na casa do fariseu. Todo mundo ali a julgava — ela não tinha nenhum “apelo popular”, só desprezo. E Jesus não promete a ela aprovação da multidão. Ele diz outra coisa:
“Tua fé te salvou. Vai em paz!” (Lc 7,50)
Jesus não chega pra pessoa e fala “olha, agora todo mundo vai concordar com você, agora você vai ser famosa”. Não. Ele coloca diante dela um caminho — os passos que ela deve seguir:
“Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.” (Mt 16,24)
E o mais impressionante: quando o povo finalmente quis dar a Jesus a “relevância” que o mundo entende — depois da multiplicação dos pães, querendo fazer d’Ele um rei — olha a reação:
“Percebendo que viriam para levá-lo e proclamá-lo rei, Jesus retirou-se de novo, sozinho, para o monte.” (Jo 6,15)
Jesus fugiu da fama. Ele teve nas mãos tudo aquilo que perseguimos hoje — multidão, aclamação, engajamento — e se retirou pra ficar a sós com o Pai.
Então fico me perguntando: será que a gente está indo no caminho certo? Será que ser famoso, ter destaque, é o que nos torna especiais? É o que nos liga a Deus? Obviamente que não, gente. Mas às vezes eu acho que a gente se perde nisso.
Penso na samaritana que encontra Jesus no poço. Uma mulher evitada por todos, que buscava água na hora em que ninguém aparecia. E é justamente a ela que Ele oferece o que há de mais precioso:
“Quem beber da água que eu lhe darei nunca mais terá sede. A água que eu lhe darei se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna.” (Jo 4,14)
Se Ele encontrasse com a gente hoje e falasse dessa água, será que a gente ia querer esse encontro — ou ia estar pensando em Instagram, em foto, em tudo isso?
Se Jesus caminhasse por essa terra agora, quais seriam os conselhos d’Ele pra nós? O que Ele esperaria de cada um?
A internet: ferramenta ou corrente?
Deixa eu ser claro: eu não estou dizendo que a internet é um lugar ruim. É um lugar bom. Tem muita coisa boa — você aprende, se aproxima de alguém mesmo à distância, ajuda quem está precisando. A prova é que estamos aqui agora, falando de espiritualidade e partilhando juntos nesse ambiente digital.
Eu, como líder de um ministério que já tem mais de quinze anos de caminhada, vejo que hoje, se você não aparecer nas redes, sua missão não anda. Os convites pra eventos vão pra quem as pessoas viram, pra quem tocou o coração delas num vídeo, num corte, numa publicação.
Mas me pego pensando: a gente usa isso, de fato, como ferramenta de evangelização — ou já nos tornamos escravos desse número? Das curtidas, dos compartilhamentos, de tudo que isso traz?
Essa corrida por relevância, por agradar multidões, por escutar a voz do mundo — será que é o caminho ideal pra um cristão? Será que Deus está satisfeito com o rumo que as coisas vão tomando? E o pior: às vezes quem tem muito a nos acrescentar fica escanteado por não estar nas redes, enquanto quem tem bem menos pra oferecer vive em evidência — a internet fez isso com essas pessoas.
Eu realmente não sei todas as respostas. Mas, enquanto cristão, enquanto alguém que está buscando melhorar sua relação com Deus, acho que essas perguntas merecem ser feitas.
Um convite pra hoje à noite
O próprio Jesus nos ensinou onde está a recompensa que vale a pena — e não é na vitrine:
“Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e reza ao teu Pai que está oculto; e o teu Pai, que vê o escondido, te dará a recompensa.” (Mt 6,6)
Então hoje, quando você fechar a porta do teu quarto — na sua lectio divina, na sua conversa com Deus antes de dormir — se coloque diante da presença d’Ele. Chame o Espírito Santo pra te ajudar a discernir, pra trazer a sabedoria necessária pra entender qual é a nossa missão. E pergunte: o que a gente vem fazendo, de fato, com esse desejo que o Senhor semeou no nosso coração?
Quero fechar esse artigo falando do Padre Léo. Tem uma pregação dele que sempre mexe comigo, e toda vez que estou meditando na Palavra, mergulhando naquilo que Jesus é, ela vem ao meu coração. Ele dizia pra gente se perguntar se aquilo que estamos fazendo e usando tem um carimbo do céu — ou um carimbo que não é do céu.
Às vezes a gente nem se preocupa se aquilo ali tem esse carimbo. Mas talvez seja algo que merecesse mais a nossa atenção. Na sua oração desta noite, leve essa pergunta com você.
Bom, por hoje é isso, meus irmãos. Deus abençoe, fiquem com Deus, e nos encontramos na Eucaristia. Forte abraço.
E se esse artigo fez sentido pra você, deixa aí nos comentários ou nos mande uma mensagem — vai ser uma grande bênção poder conversar com você.
Amor e paz.